Eu provavelmente não sou essa coisa bonitinha que olham e admiram pela insistência no lado bom de tudo e todos. Eu não sou inteira margaridas nem mesmo os girassóis que tanto amo. Eu não chovo perdão e redenção, nem liberdade e sol (não se deixe levar por chuviscos, por mais que o aroma de vida seja irresistível). Eu não sou corajosa, não falo nada quando mais de três ou quatro pares de olhos prestam atenção em mim. Tenho medo de atravessar a rua sozinha, mas também tenho um orgulho ínfimo e quase imperceptível que me leva a fingir um espírito piratinha e explorador. Portanto, só seguro a mão que se estende.
Confesso de peito aberto todos os detalhes ruins porque é esse tipo de coisa que quero saber antes de estender a minha mão. Do que tem medo? O que carrega além do amor e vontade de viver? Que aroma tem: chuva ou chuvisco? Dissemina liberdade, sol, tem fobia de atenção? Gosta da bagunça ou da organização? Vive ou navega? Seus olhos perdem a vida ao ouvir algum nome ou teu coração já perdoou cada ato humano demais, pois uma bagagem de mágoas pesa demais? Tem medo do escuro? Come ou deixa de comer quando está triste? E quando está feliz, é capaz de detonar um pacote de bolacha ou um bolo inteiro sozinho? Precisa encher a cara pra falar ou enche a cara por falar demais?
Sobre o lado bonito: Eu sempre o vejo muito antes de que a primeira palavra seja pronunciada. Mais ou menos como Camelo, todo o encanto vejo de longe. Porque o encanto é perceptível até demais. Quem tem encanto dentro de si, não precisa falar. Porque os olhos sorriem acompanhando o desenhar dos lábios. Porque é tão delicado que você enxerga a fragilidade raiar com a claridade solar ou lunar, não importa, você vê. E assistir já vale a pena. Toda uma vida pode valer a pena assim.
Pena que não me contento com o lado bonito. Sim, eu quero somar alegrias. Mas adoraria resolver o lado ruim, subtrair os problemas. E ainda não decidi se a minha mania de ser útil entra nas qualidades ou defeitos. Decida você.
Nunca escrevo no silêncio. Deixo com vocês O paco do João Rosseto.
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