terça-feira, 8 de abril de 2014

Sobre um oceano morto

    Covardes! Eu tachei meio mundo, eu os culpei pela dor alheia, pelas cicatrizes que nunca fecham. Esbravejei: ''Ah, se soubessem o quão digno é lutar, não deixariam o amor ser fuzilado na primeira batalha''. Fui prepotente, um soldado burro e vaidoso. Não vi o suor nos rostos a minha frente; suor de uma guerra diária. Ser amado para em outro instante ser abandonado no campo de batalha requer extrema coragem para seguir em frente. Eu os culpava por seguirem em frente. Por amarem outra vez.
    Sempre achei que a teimosia, no sentido mais clichê e militante da palavra, tratava-se de insistir numa causa. Mas vi que teimoso mesmo é aquele que, diante da causa vencida, adota uma nova causa. Quem sabe mais valiosa, mais simples; quem sabe até essa causa não traga guerra, mas sim paz.
    Quem sabe, traga uma canção no bolso e mágica nos olhos e nas mãos. Quem sabe, seja calor, capaz de aquecer um oceano morto.
     Disseram-me que eu era um oceano morto. Minhas mãos tremiam.
     Quem sabe, eu seja calor.


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